Até a década de 1970, o uso de anabolizantes era mais comum em atletas, principalmente em esportes de força, como o fisiculturismo. Porém, o consumo tem aumentado progressivamente, principalmente em adultos jovens, sobretudo homens praticantes de musculação, estima-se que cerca de 80% dos usuários não são atletas. Atualmente, cerca de 46% dos praticantes de musculação entre 18 e 35 anos usam ou já usaram algum tipo de substância anabolizante para melhora de performance ou fins estéticos. Com este aumento importante do uso, tambem vemos notícias cada vez mais frequentes de fisioculturistas jovens com mortes súbitas, o que nos faz questionar: O uso de anabolizantes é seguro para o coração?
O uso de substâncias anabolizantes leva a hipertensão arterial, piora o perfil lipídico, aumento de eventos trombóticos e de aterosclerose, favorecendo o surgimento de diversas complicações cardiovasculares.
Algumas pesquisas tem sido desenvolvidas ao longo dos anos para tentar avaliar estas complicações. Um deles é o estudo Dinamarquês publicado em 2025. Este acompanhou por uma média de 11 anos homens que foram testados positivos para uso de anabolizantes em academias no país. Eles foram comparados com a população geral da mesma idade e após o período do estudo, os resultados encontrados foram alarmantes: estes atletas usuários de anabolizantes tiveram um risco 3x maior de infarto agudo do miocárido, 2,42x maior de tromboembolismo venoso, 2,26x maior de arritmias, 8,9x maior de cardiomiopatias e 3,63x mais de desenvolver insuficiência cardíaca.
Outra pergunta importante que devemos fazer é se algum estudo já mostrou segurança do uso. O estudo TRAVERSE, publicado em 2023 no New England Journal of Medicine avaliou os efeitos da reposição de testosterona em gel em homens entre 45 e 80 anos, com diagnóstico confirmado de hipogonadismo (testosterona <300 ng/dL) e doença cardiovascular preexistente ou alto risco para o desenvolvimento da mesma. Como resultado do estudo, foi visto que o uso da testosterona gel nestes pacientes foi não inferior em relação ao grupo controle que fez uso do placebo em relação ao número de eventos cardiovasculares nestes pacientes.
A terapia de reposição de testosterona (TRT) é indicada para homens com sintomas ou sinais de deficiência androgênica associados a níveis persistentemente baixos de testosterona sérica. O objetivo do tratamento é restaurar concentrações fisiológicas do hormônio, aliviando sintomas e melhorando a qualidade de vida. Existem indicações médicas formais para a reposição de testosterona em pacientes com hipogonadismo. Não é um diagnóstico simples de ser realizado e, mesmo nestes pacientes com o diagnóstico confirmado, a dose segura estudada é muito mais baixa do que a dose que costuma ser usada por fisioculturistas.
Nenhum estudo mostrou segurança com uso de testosterona ou outras substâncias anabolizantes em pacientes para fins estéticos ou de melhora de performance. Além das alterações cardiovasculares, o uso pode ter diversos outros efeitos colaterais, como distúrbios de humor, agressividade, acne, alopecia, disfunção renal, hepatite, infertilidade, entre outras.
A avaliação com um cardiologista se faz muito importante nesta população já que o risco de complicações cardiovasculares é expressivo, assim como um acompanhamento multidisciplinar para os que desejarem realizar o desmame.
REFERÊNCIAS:
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